Ementa
Ementa: Direito constitucional e previdenciário. Ação direta de inconstitucionalidade. EC nº 103/2019. Aposentadoria especial por exposição a agentes nocivos. Idade mínima. Vedação à conversão de tempo especial em comum. Forma de cálculo do benefício. Procedência parcial.
I. Caso em exame
1. Ação direta de inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, proposta pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria - CNTI, contra dispositivos da Emenda Constitucional nº 103, de 12 de novembro de 2019, especificamente na parte em que alteram as regras incidentes sobre o benefício da aposentadoria especial por exposição a agentes nocivos.
II. Questão em discussão
2. Há três questões constitucionais em debate, que consistem em saber se violam a Constituição: (i) a vedação à conversão de tempo especial em tempo comum, para fins previdenciários (art. 25, § 2º, da EC nº 103/2019); (ii) a redução do valor da aposentadoria especial, que corresponderia a 100% do salário de benefício, e passou ao patamar inicial de 60% (art. 26, § 2º, IV, da EC nº 103/2019); e (iii) o estabelecimento de idade mínima para a aposentadoria especial por exposição a agentes nocivos químicos, físicos ou biológicos (art. 19, § 1º, I, alíneas a, b e c, da EC nº 103/2019).
III. Razões de decidir
3. O cenário de déficit atuarial que ensejou a reforma previdenciária aprovada em 2019, decorrente do desequilíbrio entre as fontes de custeio da Previdência Social e a extensão e forma de cálculo dos benefícios, justifica a quase totalidade das alterações promovidas pelo constituinte derivado. No caso da aposentadoria especial por exposição a agentes nocivos químicos, físicos ou biológicos, esse desequilíbrio era ainda mais expressivo, pois, sob a sistemática anterior à EC nº 103/2019, tal benefício apresentava tempo de duração e valor médio consideravelmente superiores aos das demais aposentadorias e ao conjunto dos benefícios previdenciários.
4. Além disso, os mecanismos de compensação atuarial previstos na legislação, especialmente as alíquotas adicionais dos arts. 22, II, da Lei nº 8.212/1991, e 57, § 6º, da Lei nº 8.213/1991, não geravam arrecadação suficiente para neutralizar as distorções do modelo anterior. Assim, à semelhança do que se verificou na reforma previdenciária em geral, a aposentadoria especial por exposição a agentes nocivos não poderia subsistir nos moldes então vigentes, por produzir desequilíbrios relevantes em relação às demais espécies de aposentadoria e aos benefícios previdenciários em geral.
5. Quanto à proibição de conversão do tempo trabalhado em condições especiais em tempo de trabalho comum (art. 25, § 2º, da EC nº 103/2019), além de se consubstanciar em disposição materialmente constitucional, trata-se de medida que confere maior racionalidade e objetividade ao sistema e, portanto, viabiliza maior nível de acurácia nas projeções e prognósticos em relação às conjunturas futuras. Aspecto esse que é essencial à realização de qualquer cálculo atuarial.
6. Sob o prisma do trabalhador, a fixação da nova regra possibilitará maior planejamento da sua vida laboral, não havendo que se falar em prejuízos relacionados ao período passado, na medida em que a EC nº 103/2019 assegurou a possibilidade de conversão do tempo de trabalho anterior à sua edição, preservando legítimas expectativas daqueles já inseridos em condições de trabalho especiais, antes do advento do novo regramento.
7. No que se refere à alteração da forma de cálculo do benefício, para igualá-lo às demais espécies de aposentadoria (art. 26, § 2º, IV, da EC nº 103/2019), também não se verifica mácula de inconstitucionalidade porque, a rigor, o tratamento diferenciado a que faz jus o trabalhador submetido a agente nocivo já terá viabilizado a fixação das próprias condições que ensejam a concessão do benefício. A partir desse enfoque, o eventual estabelecimento de regra de cálculo diversa ensejaria uma espécie de dupla diferenciação em relação aos demais trabalhadore…
Decisão (ata)
Após o voto do Ministro Roberto Barroso (Relator), que julgava improcedentes os pedidos formulados nesta ação direta, declarando-se a constitucionalidade dos dispositivos impugnados, e propunha a fixação da seguinte tese de julgamento: “Não ferem cláusula pétrea os dispositivos da Emenda Constitucional nº 103/2019, relativos ao Regime Geral de Previdência Social, que (i) estabelecem idades mínimas para a aposentadoria especial por insalubridade (art. 19, § 1º, I), (ii) vedam a conversão de tempo especial em comum (art. 25, § 2º) e (iii) modificam a forma de cálculo dos proventos de aposentadoria especial por insalubridade (art. 26, § 4º, IV)”, pediu vista dos autos o Ministro Ricardo Lewandowski. O Ministro Edson Fachin antecipou seu voto divergindo do Relator, para julgar procedente a presente ação direta, declarando a inconstitucionalidade do inciso I do art. 19; do § 2º do art. 25; e do inciso IV do § 2º do artigo 26, todos da Emenda Constitucional n.º 103, de 12 de novembro de 2019. Falaram: pela requerente, o Dr. Fernando Gonçalves Dias; pelo amicus curiae Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica - SINASEFE NACIONAL, a Dra. Luciana Inês Rambo; e, pelo amicus curiae Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), o Dr. Diego Henrique Schuster. Plenário, Sessão Virtual de 17.3.2023 a 24.3.2023.
Decisão: Em continuidade de julgamento, após o voto do Ministro Gilmar Mendes, acompanhando o voto do Ministro Roberto Barroso (Relator), para julgar improcedente o pedido, o processo foi destacado pelo Ministro Dias Toffoli. A Ministra Rosa Weber (Presidente) antecipou seu voto acompanhando o Ministro Edson Fachin. Plenário, Sessão Virtual de 23.6.2023 a 30.6.2023.
Decisão: Em continuidade de julgamento e após o cancelamento do destaque, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Não vota o Ministro Flávio Dino, sucessor da Ministra Rosa Weber, que já proferira voto em assentada anterior. Plenário, Sess…
Fonte: base pública de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal · coletado em 27/10/2026, 10:41. Textos reproduzidos como publicados pela fonte; o resultado (“unanimidade”/“maioria”) é derivado da ata. Metodologia